2018/04/16

A VIRGEM VITORIANA




“O velho sátiro entrou no quarto da mocinha, ela estava estendida na cama, lânguida e ofegante.
Na verdade a mocinha era uma fada, de asas tão diáfanas que pareciam com as de libélulas. Magra, fina, frágil e branca feito uma porcelana chinesa, ela tremeu ao ver a figura priápica, perdeu o fôlego e sorriu.
Seu sorriso excitou ainda mais a monstruosa figura que avançou e baixou lentamente seus cascos eqüinos, evitando assim qualquer barulho que chamasse a atenção dos guardas que ficavam do outro lado da porta.
Sua respiração fazia vibrar o ar à sua vota.
A fada agitava suas frágeis asinhas e também arfava fazendo com que as chamas das velas tremeluzissem e produzissem sombras fantasmagóricas.
A besta lentamente achegou-se aos pés do leito da donzela...”




Abanando-se com as folhas manuscritas, a virgem vitoriana, afogada em uma desconhecida agonia, dirige-se à janela de sua casa de grossas paredes de pedras.  Na velha lareira uma acha de lenha estala assustando-a. Ela vira-se para trás e pensa ver a sombra do velho sátiro, encosta-se na parte mais escura da sala, e entre amedrontada e ansiosa pede a Deus que sua criatura tenha conseguido fugir do reino da fantasia e venha resgatá-la dessa vida insossa e sem cor. Mas outro estalo da lenha levanta uma minúscula faísca, que mesmo assim produz uma luz fugaz o suficiente para iluminar a sala e fazê-la sentir-se uma idiota.

Abana-se com mais força, fazendo com que as folhas se espalhem pelo chão, mas ela não pensa em recolhê-las de imediato. Antes de tudo o mais precisa respirar, precisa urgentemente respirar e chamar uma aia para libertá-la do espartilho, soltar-lhe os cabelos, trazer-lhe uma jarra de água – água, não – uma jarra de vinho tinto – vermelho cor de sangue – sente que precisa recuperar a cor.

Da janela a virgem vitoriana olha para a vila lá embaixo no vale. Mas é pouco e difuso o que se pode ver a essa hora, pois já é noite de lua nova e uma névoa muito espessa cobre tudo. Ela fecha a janela a tempo de evitar que um morcego entre em sua casa.

- Um morcego! – ela murmura – um morcego iria muito bem à minha história. Volta à escrita, relê, toma da pena de ganso – que cria exclusivamente para isso – e volta escrever.

“A criatura meio-homem, meio-bode estica sua gigantesca mão em direção à virgem. Ela sofre de angústia, desejo, escrava de um desejo até então desconhecido. Seria o forte odor caprino do mitológico ser que a enfeitiçava? Seriam seus olhos negros feito carvão?”

Outro estalo da lenha a fez jogar a pena de ganso para o alto, e quase cair da cadeira, onde se sentava na beirada, vítima, ela também, do encanto de sua história.

E com o susto, ela acaba por olvidar a introdução do morcego na história.

A virgem vitoriana resolve, enfim, chamar a sua criada, e pedir uma jarra de água e outra de vinho tinto. Com uma mataria a sede e aproveitaria para limpar o suor que lhe brotava na testa, com a outra, recuperaria a cor e a coragem para seguir em frente com a história.

Somente bebendo ela poderia imaginar a consumação do ato de amor entre a Besta e a Virgem. Enquanto esperava a velha serviçal chegar ela aproveitou para acender mais velas, a criada não deveria pegar jamais uma dama vitoriana como ela sozinha com uma história contendo sátiros príapicos, alcovas e virgens prestes a deixar de sê-lo. Ela era uma mulher vitoriana ciente de seus deveres sociais.

Passados poucos minutos, ela torna à sua pena de ganso (outra, pois aquela outra só seria achada anos depois do... - bem isso é outra história e eu não vou contar nada aqui) e à escrita. Como que possuída por mil demônios, escreve e bebe, escreve e bebe e de quando em quando, sacudindo a cabeça, ri.

Descreve com impressionante riqueza de detalhes as preliminares (que ela descrevia da lembrança de uma noite em que, procurando a chave das adegas, viu sem querer sua serviçal namorando com o chacareiro, protegidos pelas sombras dos corredores da velha mansão), trinta e três páginas depois, ela finalmente chega ao momento da consumação, e...

Para.

Estaca.

Petrifica-se, pois não sabe como continuar a partir daí, afinal, desgraçadamente, ela é uma virgem vitoriana, velha e feia.

Por exaustivos minutos, ela escreve, rabisca, rasga as folhas e nada consegue produzir. Olha para o chão agora coberto de folhas amassadas e chora.

Chora frustrada, pois:

1.      Desconhece as delícias do sexo, e;
2.     Precisa chamar a aia para, (que humilhação!) perguntar-lhe o que acontece depois das preliminares.

Gemendo, amaldiçoa ser uma virgem vitoriana...





2018/04/13

CAFÉ DEMAIS NÃO FAZ BEM


(Um drama nervoso com muita cafeína)
Um monólogo
Cenário: Uma cafeteria no Centro da cidade.



É claro que ela reparou em você quando entramos, ela até te desejou uma boa tarde. Como ela é uma fútil que diz isso prá todos? Há formas e formas de se desejar uma boa tarde a alguém. Para você ela foi mais gentil, carinhosa, e aquele sorriso não me parecia um sorriso profissional, mais parecia um sorriso de alegria, satisfação, de ter visto você aqui. Agora tente sentar-se à mesa sem chamar a atenção de ninguém e, por favor, por favor, peça o seu café que eu peço o meu. Sossega, para de tremer e enxugar o suor das mãos nas pernas das calças. Repita comigo: - Está tudo bem, está tudo sobre controle, sou o senhor absoluto de mim mesmo e nada pode me abalar, há em volta de mim uma muralha que me isola de todos os problemas desse mundo! - Vamos lá repita! Repita como se isso um mantra fosse! Ora, deixe de ser chorão, é claro que você consegue memorizar isso tudo, vamos lá, repita. Diabo, fale baixo, repita só prá você, como se estivesse rezando. Chega a garçonete, simpática e solícita, como sempre. - Olá! Mais um café, por favor. Se gosto do café daqui? Tenho certeza de que esse é o melhor café deste lado da existência... Se um sou pastor, religioso ou filósofo? Não, isso foi só uma brincadeira da minha parte. O que o um amigo aqui tem? Nada. Acho que está com alguma coisa grudada na palma da mão. Sim, vou tomar o café com adoçante, obrigado. Se ele vai tomar café também? Não sei. Talvez ele queira antes ir ao toalete tirar seja lá o que for que o está incomodando antes de pedir alguma coisa. Isso, então depois você vem aqui na mesa outra vez. Ela estava sorrindo para você, mas quando viu essas mãos se movimentando debaixo da mesa, acho que se assustou. O que foi que te falei sobre esse tique nervoso de ficar secando as mãos nas calças? Assim você não vai conseguir nada mesmo, e me faça o favor de parar de engolir em seco, me dá aflição esse pomo-de-adão subindo e descendo... Volta a garçonete - Olá outra vez...! Sim, vou aceitar mais café. Nossa isso está parecendo um daqueles filmes americanos em que a garçonete aparece servindo café nas mesas, só falta uma torta de maçã. Não, não, não só estou falando no sentido figurado, não gosto de tortas, muito menos gosto de maçãs, vivo fugindo do pecado..., não, como lhe disse antes não sou um pastor. Onde está o meu amigo? Ele foi ao toalete tentar tirar alguma coisa que estava grudada em suas mãos. Ah! Sim, sim, ele encostou numa parede vindo para cá e alguma coisa colou em suas mãos. Nossa, que suspiro mais profundo esse. Alívio? Por que alívio? Ok vamos deixar isso para lá então. Olhe, ele já está vindo. A moça se retira de volta ao balcão. Não começa com isso, não faça cena, segura essas lágrimas, e não esfregue as mãos nas calças. Ela não fugiu quando você chegou, ela só foi buscar outro café para mim. Claro que eu não agüento mais tomar tanto café assim. Ainda vou ter um enfarto na minha gastrite. Sentido figurado, não existe enfarto em gastrites! Olha, ela está vindo ai. Peça um café, chocolate, cerveja, formicida, diabo-verde; eu sei que você não bebe cerveja – se eu tiver que repetir a palavra “sentido figurado” outra vez, vou matar um, e não fique balançando a cabeça e dando sinal para eu falar baixo, porque eu estou falando baixo. Pare de tremer! - Olá. Não, não me canso de dizer olá, acho olá uma palavra tão simpática, aliás, em matéria de simpatia, olá, só perde para você. Sim, é claro que eu vou tomar outra xícara de café. Meu estômago? Ora, estômago forte é o meu. O quê? Não, onde você ouviu falar nisso? Enfarto de estômago não existe, não existe. Sim, é por isso que me enveneno, digo, bebo tanto café assim. Ô rapaz, responde prá moça, você quer uma xícara de café ou não? Que tosse é essa? Cara, você está ficando vermelho, acho melhor você voltar ao toalete e passar uma água no rosto. Vá lá, vá lá. - Olá você! Achou isso engraçado? Acho que ouvi essa besteira na TV, não tenho cá muita certeza. Como?, se meu amigo está melhor? Está sim. Ele quase não se machucou com o tropeção na mesa. Quê? Uns cacos de louças? Aquilo não é nada para ele... Sangue, que sangue? Besteira. Ele sangra muito mais que isso quando se barbeia... Não! Graças a Deus ele não é hemofílico... Você acha mesmo que ele está demorando tanto assim no toalete?  Ok, então vou aceitar mais uma xicrinha de cafezinho dessa vez com leitinho. Se eu tomar mais uma xícara de café, eu morro. O amigo volta. - Preste bem atenção ao que vou te falar: pára de tremer, não interessa se ela está vindo ai, não me interessa se ela está te olhando de um jeito esquisito, não me interessa se ela está ao meu lado colocando mais uma xícara daquele amaldiçoado café na minha mesa, não me venha com a desculpa de que ela está aterrorizada, não me interessa se minhas mãos em seu pescoço estão te deixando sem ar. Pare de tossir e preste bem atenção ao que eu vou te dizer, vamos olhe para mim e pare de esbugalhar os olhos, ou você se declara para ela agora ou nunca mais vai tomar café comigo. Entendeu? Entendeu? Me diga logo se entendeu. Vamos, pisque duas vezes para sim e três para não! Não baba.

Interlúdio.

Dias depois...

- Como ela teve a coragem de te dizer isso? Eu que sempre fui tão gentil e educado. Eu que dizia olá toda vez que ela surgia feito uma aparição na minha frente com aquela bandeja cheia de xícaras e xícaras e xícaras e xícaras e xícaras de café...? Eu não estou nervoso! Como você pôde ouvir tudo e não me defender? Como você deixou que ela dissesse que eu sou violento? Eu não estou nervoso! Ora, não me venha com “essas marcas de dedos que eu deixei no seu pescoço”. Ela disse isso? Eu não estou nervoso! Ela disse que o meu vício por café vai me levar a cometer um crime e que a vítima ainda será você? E você quer eu não fique nervoso? Eu não estou nervoso! Você falou para ela que:

1.      Eu ia à cafeteria por sua causa?
2.      E que você ia à cafeteria por causa dela?
3.      E que por causa de vocês dois eu bebia tanto café?

Você falou isso para ela? Falou? Eu não estou nervoso! Para de balançar a cabeça desse jeito. Assim você me deixa nervoso! Que veia saltada, que veia saltada? Eu já disse que não estou nervoso! Já te falei que não existe enfarto de estômago, não existe, eu não estou nerv...


Apaga a luz

Cai o pano com estrondo


2018/04/11

O JANTAR




- Passe-me o arroz. – esse pedido foi seguido não do arroz, mas de um silêncio que prenunciava outra discussão. A noite prometia, as crianças olharam para o chão, o menorzinho começou a chorar, a menina do meio, fez-lhe um sinal, discreto, com a cabeça.

 - Não chora, não comece, engula o choro- pediu baixinho - por favor. O esforço seria demais, pois ai ele começou a chorar mais alto ainda...

A mãe tremeu, sabia o que viria seguir, e sabia que o “seguir” não seria a travessa de arroz. O filho mais velho fez menção de levantar-se e pegar a travessa, mas o pai o interrompeu olhando duro, tanto que o caçula desandou a chorar ainda mais.

A mãe desistindo do jantar levantou-se para tirar o filho pequeno da mesa.

- Deixe ele ai, ainda não acabei de comer! – rosnou duramente o pai mastigando uma coxa de peru. A menina do meio tentou servir a mãe, mas o irmão mais velho, o Júnior, orgulho do pai e da escola militar disse-lhe que não, lhe explicando.

- Isso é briga de cachorro grande – disse, encarando raivosamente o pai.

O pai esbofeteou-lhe a cara. Na mesa dele, na casa dele, debaixo do teto dele, ninguém falaria desse jeito com ele, se ele quisesse falar como um vagabundo que fosse para a rua, lá era lugar de proferir essas palavras, não a casa dele. O filho envergonhado baixou a cabeça, o irmão menor já estava chorando por ele.

O menor estava banhado em lágrimas, chorava de soluçar, a irmã, olhava ora para a mãe, ora para travessa de arroz, ora para o pai furibundo, ora para o Júnior que esfregava o rosto vermelho.

Perdida, olhava para a mesa e via a comida esfriando, o relógio da parede fazia tanto tictactictac que parecia que sua cabeça iria estourar, não sabia o que fazer, estava com medo até de respirar e lentamente foi segurando a respiração, com sorte desfaleceria e não veria o fim desse drama.

O pai gritou com o menor, que parasse de chorar - já! - ou ele lhe daria motivos de sobra para chorar muito.

A mulher continuava estática com o pedido de arroz, congelado no ar. O que teria acontecido para o marido agir daquela forma? O quê? Por Deus, o que ela ou as crianças haviam feito para deixá-lo assim tão transtornado?

Ela não conseguia tirar de sua cabeça  o pedido do arroz, sentia-se idiota, como poderia sentir medo com uma cara que lhe disse:

- “Me passe o arroz?”

Os tic-tacs começaram a tornarem-se lentos, o tempo parecia estar parando, parando, parando...

Todos, com exceção do pai, queriam sair daquela mesa, queriam ir para seus quartos, pular a janela e nunca mais voltar àquela casa, mas o tempo não passava, a comida esfriava, os ânimos alteravam-se, os olhos do pai brilhavam e a noite lá foi ficando mais escura.

Nesse momento entram os comerciais!





2018/04/10

CASA DE CHÁ “A GUEIXA E O SAMURAI”



- “Acho que esse negócio não vai dar certo, esse povo aqui não tem sensibilidade (na verdade quis inteligência, mas achei melhor usar outra palavra, assim, mais suave...) e perfil para isso.” - falei, mas ai já era tarde demais, como vocês perceberão. Antes de qualquer coisa, mais uma caneca de saquê. Sigamos com essa triste desdita:
1.                 O Severiano – Biu - para os íntimos demorou muito tempo para entender qual o papel dele naquele drama. Aquela roupa, penteado, tamancas de madeiras, aquele chapéu de bambu que mais parecia um funil era demais para aquele pobre e minúsculo cérebro desidratado e anêmico. Vivia reclamando pelos cantos, demonstrando seu descontentamento, tantos às meninas, ao patrão e pior, aos fregueses... Não poderia dar certo mesmo... Toda hora ruminando: - O que mãinha vai pensar se me vir assim? Cadê meu facão? Homem macho de verdade não se submete a essa vergonha... – Resumindo, demorou até que demais para isso tudo dar errado.
2.                 As meninas então. As quatro que o patrão convenceu a entrar nessa empreitada... Suzaninha, a Yuriko; das Dores, a Yushiko; Tiana (Sebastiana) a Tashiko e a Mariinha, a mais nova, chamada de Flor de Lótus, não tinham o menor perfil para a empresa. Elas nem sabiam o que estavam fazendo lá. Foi um inferno do começo ao fim. Será que era assim tão difícil assim entender a diferença entre servir chá e prostituição?
3.                 A casa. Balancei a cabeça até quase cair do meu pescoço quando a vi. Não sabia qual pergunta gritar primeiro. Onde o patrão arrumou uma casa de bambu e paredes de papel ou quem foi o louco que construiu aquela obscenidade para ele? Detesto a miséria, não porque ela nos priva de muitas coisas, mas porque ela nos submete a muitas outras coisas piores... Via aquele sobradão, bandeirinhas na entrada, portas de correr – que tinha certeza seriam chutadas para frente quando entrasse o primeiro freguês. E aquelas paredes feitas de papel de seda com motivos orientais, aquelas borboletas, Monte Fuji, japonesas de sombrinhas... Tudo ali cheirava a erro e prejuízo... Consolava-me repetindo o mantra (aprendi isso com um velho careca vestido com uns panos cor de laranja que o patrão trouxe para conhecer a casa): “Isso não problema meu, esse não é meu dinheiro, meu salário está depositado no banco.” Aquilo tinha tudo para dar errado, mas por que só eu percebia isso?
4.                 Vistoriando a dispensa chamei a atenção do patrão para o detalhe das bebidas: - Saquê e chás? Explicou-me o douto empresário que ele formaria uma comunidade, educaria uma geração, prepararia aqueles miseráveis para o mundo! – Arrogância! – sibilei. Nenhuma cachaça patrão? Nada de carne de sol? Neca de farinha? Sem sanfoneiro?
5.                 Música! Toshinori-San! Nosso tocador de berimbau de arco ou coisa parecida com isso! Fracasso esperado e cumprido. Onde que, na nossa cidade, alguém ia sair de casa à noite, depois de um trabalho nesse calor dos infernos para ouvir um sujeito tocando berimbau e ainda por cima com arco, um óin-óin-óin de furar os ouvidos de qualquer cristão! Não ia dar certo, não ia dar certo, mas eu repetia: “Isso não problema meu, esse não é meu dinheiro, meu salário está depositado no banco.”.
6.                 Primeiro dia, quinta-feira: As pessoas passavam de outro lado da calçada com medo de serem visto diante daquela casa esquisita, tinham medo que com um vento noroeste mais forte ela viesse abaixo. Segundo dia, a mesma coisa. O cheiro do prejuízo começava a atrair moscas.
7.                 Sábado. O grande dia. Toshinori-San no cantinho dele tocando aquele instrumento amaldiçoado dos infernos espantava as moscas, Yuriko, Yushiko, Tashiko e Flor de Lótus, todas vestidas de quimonos com motivos florais, sentadas no chão de tatame em volta de uma mesinha esperavam pelos fregueses.
8.                 Severiano, travestido de Samurai, kataná à cintura, cajal reforçando seus falsos traços asiáticos e com cara de bravo (motivado pela briga na hora de maquiar os olhos; - Se mãinha passa aqui e me vê maquiado feito quenga?) não ajudava muito a atrair fregueses...  Aquele cheiro me perseguia. Reclamando ao patrão sobre isso, tudo o que ele fez foi mandar queimar uns incensos...
9.                Por fim, às 23h00min horas (precisei chamar as “gueixas que já haviam se recolhido com os quimonos, pois não havia modo de colocar naquelas cabecinhas que quimono não é roupa de dormir) entraram uns estudantes de Direito. – O cheiro de prejuízo nesse momento tornou-se insuportável, mas: -“Isso não problema meu, esse não é meu dinheiro, meu salário está depositado no banco.”
10.                       Os estudantes sentaram-se à volta da mesinha de laca preta com motivos iguais às cortinhas e dá-lhes Monte Fuji coberto de neve (um estranho conceitos pra essas bandas que nem inverno tem), borboletas e as japonesas com sombrinhas (segundo estranho conceito, pois aqui não chove e nunca passou pela cabeça de ninguém por aqui se proteger do sol), pediram cerveja; - Cerveja não servimos senhores, respondeu Yuriko sorrindo um sorriso de dentes amarelos e tortos causando a segunda má impressão.
11.                       - Uísque! Pediu o segundo. – Uísque também não servimos senhor, respondeu Yushiko solícita e medrosa – não sorrindo para evitar piorar ainda mais situação (o pivô do canino estava perdido desde ontem).
12.                       Toshinori-San entusiasmando-se com a presença de fregueses – alguém haveria de reconhecer seu fabuloso talento, segundo ele – furiosamente começa a executar uma peça clássica do Japão Feudal, e o óin-óin-óin come solto!
13.                       Positivamente a música não acrescentou nada de positivo ao ambiente. Por via das dúvidas pedia a Severiano, o Samurai da tabuleta na porta, que vigiasse os fregueses enquanto ia lá escritório buscar mais incensos.
14.                       Nos fundos, lá no escritório comecei a ouvir uns risinhos, sorri junto e comecei a abanar o cheiro de prejuízo das minhas narinas, abri a gaveta da escrivaninha para guardar de volta as varetas de incensos e retornei lá prá frente...
15.                       Esse é o momento que tudo fica confuso, nebuloso, turvo, pois onde eu deveria ouvir risos e selvagens óin-óin-óin-óins reinou por longos e intermináveis segundos o mais profundo e negro dos silêncios. Mal tive de recorrer aos incensos, fui apanhado pelo cheiro do prejuízo e tudo começou a se acabar.
16.                       Yuriko, Yushiko, Tashiko e Flor de Lótus corriam descalças em direção à rua aos gritos, os cabelos soltos (que trabalho tivemos para alisar aqueles fios crespos e rebeldes), os estudantes de direito atrás delas e de facão na mão, esquecido de sua kataná de bambu, Severino com os olhos manchado de cajal. As paredes de papel de seda destruídas estavam espalhadas pelo tatame, pedaços de borboletas, de japonesas com sombrinha, restos do Monte Fuji por aqui e por ali...
Dizem que encontraram Severiano andando pelas ruas murmurando palavras que ninguém entendia e segurando uns pauzinhos que soltavam fumaça...
Os mandacarus floresciam, talvez chovesse, enfim...



PELA MANHÃ


urubus sobre uma carcaça
num poste - soberbo
feito burguês – um pombo

2018/04/06

JAGUNÇO





Acabo de voltar da rua, encharcado até os ossos.

Mas não quero reclamar da chuva, nem da falta dela onde mais se precisa que aqui. Para isso temos os noticiários que não nos deixam esquecer. Na rua, lembrava-me de uma conversa que tive pela manhã.

Uma amiga reclama do fim de seu casamento e de não conseguir colocar o ex-amor para fora de casa, antigo ninho de amor, promessas e agora sonhos desfeitos e cuecas sujas.

Segundo ela, há vários dias deu ao companheiro o aviso-prévio, o caia fora, rua.

Mas ele faz-se de desentendido e continua assombrando as paredes do lar.

Dizia-me ela, que já não mais se falavam, faziam as refeições em horas diferentes, dormiam em quartos separados.

Todos os dias ao sair para o trabalho recomendava (creio que esse recomendava é eufemismo) que ele não estivesse mais em casa à hora que ela voltasse, mas, ó desilusão!, ao chegar encontrava o mancebo largado no sofá assistindo futebol televisão, gritando a cada gol de seu time, esperando ainda que ela lhe fizesse o jantar ou pipoca. Se isso remete o leitor a um samba antigo é pura coincidência.[i]

Ri de sua situação. Diga-me o leitor o que se pode fazer numa circunstância dessas?

Pediu-me conselhos. A mim, logo a mim!

Ri uma segunda vez e perguntei-lhe se falava sério? O que poderia eu dizer-lhe, como eu poderia ajudar-lhe. Esse é caso em que terceiros não ajudam em nada e podem (e) conseguem somente atrapalhar.

Indaguei se não seria uma fase, pois o casamento como a lua tem lá suas fases. Como a maré (coisa de quem mora no litoral) tem lá seus altos e baixos...

Resumindo, fui tirando meu time de campo colocando panos quentes, saindo pela tangente.

A conversa prometia ir longe, com detalhes e mais detalhes, não ninguém pela minha sala, nem um estagiário com papeis para arquivar, ninguém vendendo uma rifa de qualquer coisa, não tocava o alerde de incêndio para assim eu poder sumir dali. A palavra como flecha, depois de disparada não tem volta (eis aqui uma pérola de profunda sabedoria!), assim sendo tentei fazer a velha amiga não abrir tanto assim seu coraçãozinho.

Debalde.

As horas tantas, sim horas “e” tantas (mesmo) ela visivelmente desesperada (aqui não nos cabe julgar se seria caso para tanto desespero) me pergunta:

- Você que conhece tanta gente em tantos lugares, não conheceria algum jagunço que desse uma lição, ou mesmo leve susto nele?

Veja leitor, eu conhecendo um jagunço, eu?

Não foi possível outra vez segurar o riso.

Senti uma mágoa profunda nela, pois, agora sim, era visível sua desesperança.

Tentei desviar a prosa para outro tema menos denso.

- Olhando pela janela vejo que vai chover logo. E comentei displicente:

- Acho eu vai chover...

Pausa.

Pensei com meus botões, ela deveria estar constrangida com seu desabafo, envergonhada da sugestão de dar um fim definitivo no futuro ex-companheiro, talvez já se imaginando nos jornais da noite, horário nobre na TV. Cadáver retalhado encontrado num terreno baldio, ou pedaços de um homem e encontrado espalhados numa praia, sei lá o que se passa na cabeça de uma desesperada... Nunca coisa boa!

A cara estampada na capa de uma revista sensacionalista!

A cena desenvolvia-se em minha cabeça...

Esperei mais algum tempo e seu silêncio continuou ate minha hora de almoço. Sem mais nenhuma palavra, desliguei o computador e saí, deixei-a a contar os urubus que voam, talvez adivinhando o uma futura carcaça, sei lá...

Na rua pensava ainda na sua pergunta sobre eu conhecer um jagunço, e lembrei que há uns trinta anos, quando jovem e fazendo teatro amador, sai uma noite - sim aqueles casos com o Vadinho como sempre - a procura de sanfoneiro para uma peça que montávamos à época...

Ora bolas, eu lá tenho cara de quem conhece sanfoneiros e jagunços? Poderia ter me aprofundado mais no assunto, não fosse a água fria de a chuva me trazer de volta à realidade.






[1] Golpe Errado
Geraldo Pereira

Lá vem ele com seu terno branco engomado/trazendo outra morena a seu lado/E a nega dele na casa da branca se acabando /E ainda leva o jantar embrulhado/É... um golpe errado/todo mundo diz que é../um golpe errado/Na hora que ele sai /pra batucada/é a hora que ela chega do trabalho/e tem de fazer de madrugada/um bife malpassado prá ele /Não ficar contrariado./É...um golpe errado








SOMENTE UM CIGARRO ME BASTA AGORA



OUTRO PEQUENO DRAMA-RELÂMPAGO



Luz sobre um homem que fala.
Não se vê mais ninguém, ouve-se somente a sua voz.

- Nada, nada a declarar! – só isso tenho a dizer a cada um de vocês. Não me sinto com obrigação de falar nem uma única palavra sequer! Sim, dei o tiro, mas poderia ter sido uma facada, uma paulada, uma pedrada, uma garrafada como nos filmes de ação. Mas resolvi que deveria dar um fim naquela situação um simples e rápido tiro. - “Pum! Fração de segundo depois o corpo no chão. A mancha vermelha no assoalho. Minha arma ainda fumegante também ali caída, e no piso deixei as marcas de meus sapatos que seguiram vermelhos pela sala, para a saída do apartamento. Não pensei em correr, em fugir, em me esconder. Era patente o meu desejo, a minha ânsia, só não viu quem não quis, quem não quis se envolver, tomar partido, meter a colher.  Aqui estou dando meu depoimento. Perguntem e responderei, sequer alegarei ser réu-primário, um cigarro nesse momento me basta. Não, não sinto qualquer tipo de arrependimento, nem culpa, nem frio, nem nada, somente a vontade de fumar um cigarro. Cumpra-se a Lei, sigamos a Ordem, façam a Justiça. Eu já fiz a minha. Estou em paz. E vocês? Poupem-se de me perguntarem por que fiz o que fiz, não sou louco, logo motivos tive, e ouso dizer, tive-os e muitos! Não os enumerarei, não me justificarei, cumpram o rito e condenem-me logo. Não quero ir ao velório, nem ao funeral, por mim que joguem o corpo aos abutres ou deem de pasto às chamas. Minhas última palavras?

- Um cigarro, por favor.



Luz apaga lentamente

Silêncio.

Cai o pano




2018/04/04


MENINAS



F
oi um sentimento agudo no peito, uma pontada, fisgada –angina? -, coisa rápida, de segundos. Logo passou, mas para Fialho, Antonio Fialho da Silva, era o aviso. Voltou para dentro de casa e dirigiu-se a seu escritório, lá ele sentou-se em sua poltrona de couro e ficou fitando o telefone. Ligaria? Esperaria que o aparelho tocasse? Olhou para a garrafa de uísque, pegou o copo de cristal, mas resolveu que não beberia dessa vez. Fizesse o que tivesse que fazer, o faria sóbrio. Passados minutos, poucos minutos, resolveu ligar.

- Alô? – atendeu uma voz feminina do outro lado.

- Sou eu... – falou reticente –, você também sentiu? Coisa de meia hora atrás?

- Sim, mas dessa vez esperei que você me ligasse. Por mais que isso me aconteça, não vou me acostumar jamais – disse num misto de tristeza e certa mágoa resignada. – Minha situação aqui está insuportável... – queixou-se chorosa.

 - Mas o que você espera que eu possa fazer? Acha que eu tenho algum controle sobre isso? Pensa que faço isso de propósito? Que quero de alguma forma me vingar ou te prejudicar? Entenda, não quero nada...

(silêncio ensurdecedor...)

- Como faremos? – ela perguntou friamente, como se essa fosse uma mera transação comercial. Acha que será primeiro comigo ou com você?

- Não sei, não sei o que acontecerá... – desculpou-se em vez de responder. Vamos esperar.

(silêncio escandaloso...)

- Está certo – disse ela. - Vou preparar um quarto e meu espírito para ter que explicar tudo isso outra vez. Não sei como isso pode acontecer a alguém, muito menos quatro vezes, quatro vezes seguidas... – suspirou.

Desligou o telefone sem dar outra chance de ouvir as desculpas de Fialho, o velho, desde sempre o velho Fialho.

Uma hora e meia depois um toque de campainha fez Mariana lembrar-se do “compromisso” forçado para o dia de hoje. Desde o telefonema de Fialho passara o resto da tarde preparando um bolo e biscoitos, pois seria uma tarde muito longa para conversar de estômago vazio e garganta seca. Por via das dúvidas, caso a conversa se prolongasse muito, sempre haveria uma garrafa de Porto para socorrê-la. Deixando os pensamentos de lado foi atender a porta.

Respirou fundo e preparou-se para o “choque anunciado”.

Arrumou os cabelos precocemente – segundo ela - brancos num coque, beliscou as bochechas e abriu, por fim, a porta. E lá estava uma mulher de seus trinta anos, magra alta, longos cabelos negros e – surpresa entre as surpresas – trazia no colo uma criança de uns três ou quatro meses...

- Meu Deus, seus delírios não têm limites Fialho? – quase gritou em direção aos céus num sobressalto.

À mesa.

Sentadas, xícara de chá às mãos, as duas mulheres se encaram, e esperavam o tempo correr para quebrar o gelo e começarem a entabular uma conversa com um mínimo se sentido e nexo.

Várias xícaras foram servidas e sorvidas...

(o silêncio pesava, quase envergando os caibros da casa)

Foi preciso que a criança acordasse com fome para que enfim começassem a falar.

- Qual o nome dele? – perguntou a Velha Mariana sem jeito e sem interesse e nenhum ânimo.

- Antonio Fialho da Silva Neto – e completou – como o avô! – e riu bobamente.

- Sem dúvida ele se superou, ele foi além do imaginável, do bom-senso, ele enlouqueceu de vez. – Mariana falava e deixava a xícara de chá partir-se no piso frio da sala.

Com o grito de susto da Velha a criança voltou a chorar.

- Mãe, você poderia me explicar o que está acontecendo?

Ao ser chamada de mãe, Mariana teve um calafrio e começou socorreu-se com um cálice de Porto. Serviu-se generosamente sem oferecer à outra, e tomando as rédeas da situação começou a contar a sua história.

- Antes de começarmos a conversar permita-me somente dar um telefonema.

Sem esperar qualquer anuência da parte da outra ela começou a discar, errou três vezes o número, quando por fim começou a chamar, pareceu uma eternidade até que atendessem do outro lado.

- Mariana? – a voz denotava apreensão.

- A...? Como é seu nome mesmo? – lembrou-se então de perguntar à visita.

- Elisabeth – respondeu secamente a mulher que nervosamente chacoalhava o nenê.

- A Elisabeth chegou, é melhor você vir aqui. Desligou bruscamente, como costumava fazer quando falava com Fialho.

Cruzando as mãos Mariana começou a falar.

- Elisabeth..., pelo menos esse nome foi bem escolhido dessa vez. Essa história, minha história quero dizer, começou a mais de quarenta anos, e como estou tão farta dela, serei o mais breve, sucinta, concisa possível. Poupe-se de me pedir detalhes ouça em silêncio e faz a criança não chorar! Eu era muito jovem quando conheci o homem que hoje você conhecerá como seu pai. Foi uma paixão dessas de mocidade que não deveria ter maiores conseqüências, não fosse eu ter conhecido o Fialho e ele ter se apaixonado por mim de uma forma que o mundo nunca viu, e espero que nunca mais venha a ver, pois isso poderia abalar as estruturas da sociedade e do espaço-tempo e da realidade como a conhecemos. Mas acho estou indo longe de mais em minhas divagações, esqueça o que eu disse sobre abalar as estruturas da sociedade, à vezes esse assunto somado às doses de cavalares de Porto me deixaram assim. Em outros tempos, no começo de tudo isso, eu me emocionava e chorava, agora teço teorias calamitosas...

Elisabeth pigarreia e Mariana volta ao assunto, a criança, ressona, voltou a dormir depois de mamar.

- “Pois bem”, me apaixonei pelo Fialho, na época um poeta parnasiano-tardio – que mais tarde enveredaria pelo concretismo sem sucesso também - mas nosso romance não tinha futuro, até porque eu não tinha pretensões de nada mais sério, minha inclinação sempre foi religiosa e por fim, pouco tempo depois ingressei numa ordem religiosa e esperava que minha história se acabasse por lá, longe de tudo, do mundo e assim terminar minha vida em contemplação sem complicações. Até que um dia, quinze anos atrás, apareceu a sua primeira irmã, na verdade a caçula...

Elisabeth engasgou-se com o biscoitinho.

-”Não me faça perder tempo com tapinhas nas costas” – rosna. Preste bem atenção, pois não consigo mais contar essa história sem-pé-nem-cabeça sem acabar o dia com uma enxaqueca.

- “Um dia batem à porta do Convento procurando por mim, era uma moça, bem mais nova que você – afinal ela nasceu caçula, coisas de seu pai – contou-me que simplesmente havia dado por si ali, em frente àquela porta, sabendo que eu era a sua mãe e que precisava falar comigo. Imagine a minha surpresa, eu virgem velha – bem menos àquele tempo, claro – e com uma filha que eu desconhecia me procurando. Imagine o escândalo, e como foi minha expulsão.

“Não me peça detalhes, aliás, nada me peça. Depois de Clara, sim, Clara é o nome de sua irmã caçula, veio a Laura, a segunda, ela vem logo depois de você e a terceira é a Leonora. Mas para eu conseguir entender tudo isso foi preciso passar muito tempo, até que eu conseguisse encontrar e entrar em contato com Fialho. Resumindo, antes que eu esvazie meu Porto, seu pai me contou que nunca me esqueceu e sempre imaginou como teria sido a nossa vida, como teria sido a nossa família, e de tanto imaginar, ele estragou a minha vida, digo, criou vocês, fora de ordem, pois ele nunca foi organizado em nenhum ponto de sua vida...

“Hoje vivo da pensão alimentícia que ele me paga e só agüento mesmo essa situação graças às garrafas de Porto que ele me envia semanalmente. Não é nada pessoal, mas espero que você seja a nossa “última” filha, pois não nasci para a maternidade – olhando agudamente para a criança que agora dorme no canto do sofá –, tampouco para ser avó”.

Mariana emborca o resto do Porto, agora direto da garrafa, olha para o relógio, e diz:

- Logo seu pai chegará – suspira com forte hálito de vinho – junto com as suas irmãs. Por favor, segure o choro, senão começo a chorar junto, e não, não se engane, pois minhas lágrimas serão de desgosto, pois tudo o que eu queria era acabar meus dias no meu convento em meditação e preces.

A campainha toca e um cachorro late do outro lado da porta.

- Ah! Não! Cachorro, não Fialho!