2017/10/06

AQUELA SEMANA SINISTRA


(Revisada e ampliada)


Dia primeiro

Uma segunda-feira clara, fresca e azul de andorinhas e sanhaços, sabiás cantando e anjos voando, ela entrou na sala. Ai, nesse momento as cortinas deveriam ter descido e acabado o espetáculo. Todos lhe deram boas-vindas, beijinhos no rosto, tapinhas nas costas - tudo falsidade, tudo falsidade, eu sei, eu sinto, eu vejo, eu sinto o cheiro – mostraram-lhe a sua mesa, o serviço que faria, onde ficava o café - mas lógico que tudo isso seria para amanhã, pois hoje seria só festa. Faltaram os confetes e as serpentinas (que eu tinha em estoque na minha gaveta). Ela nem olhou para mim – sequer através de mim! - pois eu estava no canto da sala, canto direito onde batia o sol da manhã e o da tarde - as duas janelas sem persianas, o que explica o meu eterno bronzeado de janeiro a dezembro. Ignorado como estava, e sempre estive – e possivelmente sempre estarei - deixei que meu coração disparasse a bater, batia um tum-tum-tum louco e desenfreado, não fossem os colegas de sala tão ignorantes teriam a impressão de estarem a ouvir os acordes finais da Abertura 1812, onde sinos badalam e os canhões disparam e comemoram a vitória do exército russo sobre o exército de Napoleão Bonaparte... Mas guardei para mim toda essa impressão e segui batendo meus carimbos, escrevendo meus memorandos, minhas cartas, recortando trechos aleatórios do D.O.E. Mantive a minha eterna fleuma britânica – Deus salve a Rainha!, mas foi nesse dia que me apaixonei perdidamente por ela. Foi ai que começou meu inferno interior...

Segundo dia.

Cheguei mais cedo, tinha que ter certeza que a faxineira iria limpar bem a mesa dela, queria um serviço impecável, trouxe de casa um desinfetante importado, perfumadíssimo, o Chanel Nº 5 dos desinfetantes. Isso lhe causaria uma boa impressão da repartição.  Fechei as janelas, impedi assim que o mau cheiro da rua maculasse o ambiente. Liguei meu rádio, uma música suave preencheu todos os cantos da sala, quem resiste a um Frank (ah! aqueles olhos azuis!) Sinatra cantando FLY ME TO THE MOON? Ah!, mas o melhor, o melhor mesmo, o fantástico, o fabuloso, o incrível, o kafkiano em último grau, eu deixei para quando ela viesse me cumprimentar aqui no meu cantinho ensolarado. Às oito e trinta cinco – segundo dia e já se deixando levar pelo mau-exemplo dessas víboras da sala, pobre alma inocente! – ela chegou atrasada e sorridente distribuindo bons-dias e tudo-bens a todos, mas no caminho em direção ao meu cantinho ensolarado ela foi pega pelo braço pela rainha das víboras – a substituta da subchefe - e levada à copa. Volta uma hora e quinze minutos depois, sentando-se em sua mesa somente para ligar o computador e entrar no facebook. Fiquei entre chateado com sua indiferença por mim e triste pela surpresa que eu iria fazer-lhe, aliás, mais preocupado com o bem estar da surpresa em si. Mas aguardei tomando o sol que já me pegava pelas duas janelas de canto. Levantei-me para ir ao banheiro, era hora de renovar o protetor solar e falsamente, displicente passei pela mesa dela e dei-lhe o meu mais falsamente seco e indiferente “bom dia”. Mas acho que interpretei tão bem que ela me ignorou. Alguma coisa em mim sempre me dizia que eu estava me perdendo no serviço público. Agora ela deve achar que sou antipático, um arrogante, uma besta ou quem sabe, deve achar que sou pior que aquele Déspota do RH, aquele monstro insensível! Esses pensamentos me acompanharam ao banheiro e diante do espelho vi lágrimas em meus olhos, deve se a poeira, ou o cheiro do granel podre nas linhas dos trens, só poderia ser... Apliquei o creme protetor fator 200 que espalhei pelo rosto e principalmente no pescoço que pegaria agora todo sol forte da manhã. Suspirei, lavei as mãos e voltei para o meu cantinho no fundo da minha sala. Abro a porta e sinto-me violentado. O que ouvem meus ouvidos? Onde antes se ouvia Frank Sinatra, agora tocavam pagode, pagode, pagode! Pobrezinha, pensei, que má-impressão terá de nós. Como me preocupava com ela... Respirei fundo outra vez e fingindo indiferença entrei na sala, passei por sua mesa e perguntei irônico se estava gostando da “música” – (acho que consegui fazê-la ver as aspas) – e batucando com um lápis no copinho de café, respondeu-me que sim. Baixei minha cabeça, sentei-me à mesa e me afundei no trabalho até a hora do almoço. Não voltei à tarde, abonei.

Terceiro dia.

Entrei na repartição com renovadas esperanças e um jornal debaixo do braço.. Mas eu era mesmo um estúpido! A pobrezinha estava tentando enturmar-se, como poderia ela, recém-chegada dizer àquelas víboras que gostava de boa música, que Frank Sinatra tocava fundo o seu coração? Sim ela teve que fingir (e a que preço?) que gostava de pagode. Acho agora, em retrospectiva, que ela estava batucando no copinho até bem descompassada... Paguei à faxineira para usar mais daquele meu desinfetante especial importado na sala. Anonimamente mandei entregar-lhes rosas, vermelho-sangue, vermelho-paixão, vermelho quase negro. Isso deveria causar-lhe uma muito boa impressão e despertar-lhe a curiosidade de querer saber quem enviara tais flores... As oito e cinquenta cinco ela chegou - mais tarde ainda. Ah! a má-influência, ah! a má-influência... Jogou a bolsa sobre a mesa e foi à copa. Quando voltou, rindo muito e ajeitando os cabelos já passava das dez horas e enquanto ela entrava na sala eu saia para ir ao banheiro passar o protetor solar - em fevereiro aquelas janelas são um inferno – quando voltei as flores já haviam sido entregues, e as víboras ciciavam. Perguntavam histéricas quem era o admirador secreto, que a ela declinasse logo o nome do pretendente. Não fizesse “mistério” Nada de segredo entre elas, que contasse logo e contasse tudo. Percebi que ela sorria um sorriso de mistério, de cumplicidade, será que ela sabia que eu era o remetente? Não, ela não sabia que eu existia. Meu coração queria saltar do peito, ele ia arrebentar os ossos de meu externo, ele queria pular da janela, jogar-se sob o primeiro trem que buzinasse nos trilhos, batia tão forte que doía, doía uma dor horrível Passei como que invisível por todas elas. Desforrei minha frustração sobre o D.O.E.  Fiz dele um saco de confetes. Telefonei ao déspota do RH e o chamei para fumar- sou fumante passivo/agressivo – e subi ao quinto andar, de lá eu jogaria minhas frustrações em forma de minúsculos fragmentos de papel... Quando volto à minha sala, ao passar pelas mesas das víboras escuto comentários sobre o mau-cheiro do meu cigarro e que é uma vergonha alguém ainda fumar nos dias de hoje. Ela olhou-me num misto de pena e nojo. Demorou muito a dar a hora do almoço. Coloquei meus fones de ouvido e me entreguei ao Frank Sinatra. Almocei e não voltei outra vez. No dia seguinte era só assinar o ponto, pois eu era realmente invisível naquela repartição.

Quarto dia.

Cheguei vinte para as oito. Adiantei-me para encontrar o déspota do RH na rua e fumar passivamente um cigarro, estava tenso demais. Logrei encontrá-lo e desfrutei do seu fumo. Antes de entrar na minha sala pedi à faxineira que me devolvesse o desinfetante especial importado - minha mãe dera pela falta! Que ela usasse o que o Estado compra e já estava muito bom! Sentei-me à minha mesa, abri o D.O.E. e com o estilete pus-me a cortar qualquer coisa com mais de dez linhas, o resto picotei com minha mãos, rasguei, piquei, eviscerei o periódico e com as mão sujas de tinta comecei a rir e jogar tudo para cima. Parei quando a faxineira entrou na sala. Dei a ela dez reais e pedi-lhe que fosse discreta e limpasse tudo direitinho. Telefonei ao tirano do RH e fomos ao quinto andar fumar. Essa situação estava me fazendo fumar demais, daí para começar a beber era questão de tempo, de bem pouco tempo. Fumei e me acalmei. Arrependo-me do apelido que dei ao déspota do RH! Tudo por causa desses meus nervos! Mas acho que ele não liga muito para isso, sorte minha! Antes de voltar à minha sala fui ao banheiro passar o protetor solar, fevereiro parece que não vai acabar nunca! Nove horas, nove horas ela chegou, e ainda assim antes das outras víboras, deu-me um bom dia e vendo-se sozinha na sala, dignou-se a vir conhecer meu cafofo, digo, minha mesa. Sorri com muita polidez, embora por dentro estivesse pulando, gritando agitando a bandeira do São Paulo Futebol Clube, soltando fogos e chorando de emoção. Ela chegou-se a mim e perguntou se alguém havia telefonado e avisado que chegaria tarde hoje. Suspirei e – para não despertar nela nenhum sentimento de misericórdia por mim, omiti o fato de que ninguém me liga, nunca - e respondi-lhe que não, que ninguém me ligou, e expliquei-lhe a contragosto que esse era o funcionamento normal da repartição, ninguém chegava na hora aqui. Ela riu e comentou que “se esforçava muito para cumprir horário, e já que o negócio funcionava assim...” Não entendi a reticência, mas sabia que dali não viria nada que prestasse. Senti ganas de ligar ao  RH, mas pensei comigo mesmo, que se não conseguiria um dia deixar de fumar de vez, que ao menos me controlasse um pouco. Fui à rua comprar um jornal para rasgar, tinham atrasado a entrega do D.O.E. O resto do dia passei com o Frank Sinatra, Tony Bennet, evitei a Bilie - por medida de segurança -, só levantei da mesa para ir ao banheiro passar protetor solar no rosto e no pescoço. Assoviando baixinho esperei pelo fim do mundo ou do dia, o que viesse primeiro.

Quinto dia.

Sexta-feira. Metade das víboras não veio pela manhã e seguindo o padrão, a outra metade desaparecerá à tarde. Hoje descubro o caráter dela! Dez e vinte e cinco ela chegou! Mal me cumprimentou com um bom dia ligeiro e superficial, pegou o telefone e pediu café da manhã no bar em frente – isso é sinal de noite ruim e dia pior, reconheço esses sinais de longe - e foi ao banheiro maquiar-se, e essa foi a primeira e única vez que vi a de cara limpa. Para mim ainda era linda, mesmo sendo invisível a ela, ela ainda era linda para mim, emocionado e trêmulo com essa epifania liguei para o RH:

– Estou subindo! – e fui para o quinto andar.

Na volta, a caminho de minha sala no corredor, escutei choro vindo da copa, era ela, não poderia ser coisa boa e certamente ela não chorava por mim... Intui que passaria o dia sozinho na sala entre Frank Sinatra e telefones tocando sem parar. O vigia da manhã me trouxe a pilha de D.O.E.s de ontem – o passado não me dá folga. Agora minha sanha homicida será saciada, procuro pela minha tesoura – onde ela está? - não quero cortar papeis com estilete, quando estou com ele na mão sinto que não respondo por mim, preciso da tesoura, e quando abro a terceira gaveta para pegá-la saem de lá as esquecidas e ainda vivas borboletas azuis, a minha surpresa kafkiana para ela que até eu mesmo tinha esquecido. Elas começaram a voar atarantadas pela sala tentando sair pelas janelas fechadas e prestes a serem trucidadas pelos ventiladores, e então os telefones começaram a tocar, os trens começaram a apitar e os caminhões a buzinar para os mesmos trens saírem de sua frente, e a faxineira que tinha entrado na sala para me devolver o desinfetante importado, começou a gritar assustada com as borboletas. Ela era leptidopterofoba era só o que me faltava. Nesse momento, numa lucidez que há muito não vivenciava telefonei ao impiedoso do RH:

– Tô subindo!

Lá em cima entre uma tragada e outra segredei-lhe:


- Cara, o amor não presta! Acho que vou entrar com meu pedido de licença-prêmio ainda hoje...




2017/09/29

O QUE EU DISSE QUANDO CHEGOU MINHA VEZ DE PRONUNCIAR-ME


Depois de ouvir por horas dos cinco irmãos e cinco cunhados as mais lagrimosas desculpas, razões, motivos, “porque sins”, “porque nãos”, gritos, acusações, ofensas, ameaças, ranger de dentes, o mais velho dos filhos disse que agora era a minha vez [1]de expor minha opinião sobre o que fazer com os velhos. E quem me conhece, sabe que essa sempre foi “a minha praia...” O que faltou em apupos sobrou em silêncio e aversão por mim, mas sigamos.

Levantei-me dramaticamente devagar, aliás, os presentes não esperariam outra coisa de mim. Apoiei minhas mãos no tampo da mesa, olhei nos olhos de cada um à minha volta, pigarreei, tomei um gole de água, que bebi lentamente (quase gargarejando) e ao pousar o copo – coisa de segundos - bati fortemente com o punho na mesa fazendo, agora, por vontade própria, uma cena realmente dramática.

Pularam de suas poltronas, arregalaram os olhos, uns mais sensíveis (culpados talvez?) perderam o fôlego e os principais interessados demonstraram medo, medo de verdade. Alegrei-me, pois como podem ver, comecei bem.

- Vocês querem a minha opinião, pois aqui vai ela. Sou francamente a favor da internação imediata dos dois. Olhei para o velho casal, eles tiveram um calafrio, discreto, mas eu percebi.

– Vocês! – disse apontando o dedo indicador de forma dramática (detesto quando percebo que, contra minha vontade, agrado determinadas plateias), deveriam ser internados numa clínica imediatamente, para posteriormente serem transferidos para uma casa de repouso. Uma vez lá, deverão ficar em quartos separados em alas separadas, nunca mais se encontrando, nem em corredores ou jardins – quando forem levados para tomarem sol – nem durante as refeições. Deverão permanecer assim até que se esqueçam um do outro. Mas – lá vou eu ser dramático outra vez! – não pensem que faço isso por maldade. Não! – devo confessar que não fui muito convincente, mas os olhos marejados dos velhos já me bastavam no momento – Digo isso para o bem de vocês dois. Lá, os velhos – pronunciei os “velhos” olhando para os filhos, ignorando totalmente os interessados como se eles não estivessem mais lá – terão atendimento médico, enfermeiras treinadas, visitas de católicas piedosas, apoio psicológico e principalmente, nenhum motivos para se queixarem de nada! Juro que nesse momento senti a primeira praga da velha nas minhas costas.

- Mais ainda. Vocês terão pessoas para conversarem, para desaguarem esse mar de fel que os corrói por dentro.
Para a Dona Celinha vai ser como aquelas férias que ela sempre quis e o velho lhe negou. Lá terá casa, comida, roupa lavada e gente para conversar à vontade, não terá que pôr e tirar mesa, lavar louça, eles cuidarão de lembrá-los dos horários dos remédios, e quem sabe, visita dos filhos e netos saudosos (tá certo peguei pesado aqui) aos domingos...

Fiz uma pausa para mais um gole de água que bebi o mais lentamente possível. Na verdade essa pausa era uma provocação, sabia que a qualquer momento um dos filhos ou filhas pulariam em meu pescoço. Os importunava sim, mas é importante que os nobres leitores tenham em mente que eu nunca quis participar dessa reunião, mas o filho mais velho usou argumentos tão convincentes[2] que não o houve como eu recusar[3] e acabei vindo aqui. Sinto que vim não como mais um genro, mas como um artista que dá show em conferências e palestras, só para distrair os presentes, sem influenciar em qualquer resultado – e cá estava eu fazendo o que faço melhor, drama e palhaçada! Sorvido o último gole de água, voltei à carga.

- Agora vejam bem – apontei com esse dedo indicador que ainda haverá de ser item de colecionador no futuro - para o velho.

- Seu Bentinho, o senhor poderá se ver livre das tiranias da Dona Celinha, nunca mais comerá a gororoba ora insossa, ora salgada que ela lhe serve, poderá ler seu jornalzinho – esse momento foi meu ponto alto, por dentro, chorei por não estar sendo filmado – pois juro diante dos presentes que faço-lhe, de todo o coração, uma assinatura do Diário Oficial da União para que o senhor tenha o que ler pelo restos de seus dias. Pense nas enfermeiras que o atenderão, todas bonitonas, de uniformes brancos e justos, todas elas sempre sorrindo, sei que a princípio o senhor estranhará esse hábito das pessoas mostrarem-lhe os dentes todas as vezes que lhe virem, mas creia em mim, todas as pessoas, fora os dessa casa, fazem isso corriqueiramente. Logo o senhor se acostumará com isso. Imagine acordar e ver um dia claro, luminoso e, não se assuste, pois aquela grande bola de fogo no céu é o sol. Não me olhe assim tão espantado – não verdade ele estava era ficando apopléctico –.  E ao ser levado aos jardins pelas enfermeiras o senhor sentirá como é bom tomar solzinho da manhã. E logo irá sentir-se tão bem que perceberá como foi estúpido economizar tanto dinheiro por tanto tempo, que num átimo, pulará de sua cadeira de rodas – impagável a cara dele com os olhos quase soltando das órbitas – e saíra andando, andando não senhor, correndo...

Olhei para os lados enquanto o filho mais velho dava um calmante para o pai, e olhando para a velha vislumbrei satisfeito, que ela, com ódio desse escriba, tinha trincado o cabo da bengala.
Olhei para meu relógio e conferi as horas com o velho cuco na parede, dei a entender que tinha que ir embora e voltei ao pequeno e improvisado discurso.

- Não quero, e faço questão de deixar isso bem claro para os presentes, que não desejo nenhum mal aos seus pais, mas somente o melhor para eles agora que o fim se apresenta cada vez mais próximo e em cada esquina – “o fim se apresenta cada vez mais próximo e em cada esquina” -. Meu Deus, que momento de rara inspiração! – Tive vontade de dar tapinhas em minhas costas...

Os filhos olharam-se entre si, os velhos – pela primeira vez em muitos e muitos anos – fitaram-se nos olhos e procuraram por Deus naquela sala, mas posso afirmar-lhes, Deus não estava lá! E tremendo em suas bases perceberam que todas as suas maldades, suas maquinações e manipulações tinham cobrado um preço, muito alto, e EU estava lá cobrando...

- Quero, como já frisei anteriormente, unicamente o bem deles, um bem que jamais poderá ser encontrado aqui nessa casa, pois nenhum de vocês tem qualquer tipo de treinamento médico, com exceção é claro do Fred - marido da filha mais velha, veterinário com licença cassada –, então pelos motivos fartamente citados e expostos, voto por mandá-los imediatamente à uma casa de repouso, e nesse momento tiro de minha pasta 007 setenta e dois folhetos de clínicas de repouso e asilos,  sendo que sessenta e nove estão localizados em Mato Grosso, Mato Grosso do Sul e Acre. De olhos marejados, jurei que era a melhor, bastava pesquisar na internet, outros em Maranhão, Rio Grande do Norte e dois ou três nas Guianas[4].

- Para terminar tão longa e cansativa peroração, quero ratificar os meus melhores votos ao Seu Betinho e Dona Celinha, e desejo do fundo de meu (raso) coração todo o bem e toda a felicidade a vocês e que seja feita somente a vontade do Bom Deus! Então abaixei minha cabeça em uma muda oração que confrangeria o coração de qualquer um com um mínimo de fé na humanidade.

Terminando de falar esperei que alguém entusiasmado deixasse de lado certas antipatias por mim e aplaudisse meu discurso, mas que nada, somente o silêncio temperado por um enorme e amargo desprezo me acompanhou até fora da sala. Saí sem que o filho mais velho me pagasse a velha dívida prometida. Mas, uma vez na rua, praguejei sacudindo meus punhos para o céu: - Espero que todos vocês morram quinze minutos depois de encontrarem a felicidade![5]

Esperei que um raio seguido de um estrondo cortasse o céu como se fosse uma confirmação do registro da minha praga, mas...






[1] O sexto cunhado.
[2] Ele me devia dinheiro. Estava, secretamente, quebrado, pois perdeu tudo o que tinha em jogos e corridas de cavalos.
[3] Eu precisava daquele dinheiro!
[4] Omiti a que havia em Maceió, muito sol e praia, que nunca desfrutariam.
[5] Vide a cena em que Scarlett O’Hara jura nunca mais sentir fome em  “...E O Vento Levou”

2017/08/29

RASTEJE HUMANIDADE, RASTEJE!



dois idiotas discutem
sobre os males
do cigarro enquanto
abanando-se  tossem & choram
encobertos pela fumaça (preta)
do óleo diesel dos caminhões
- e os pombos – há esses cínicos! –
se atracam no chão por uns
míseros  grãos