2018/04/24

OUTRO CAPÍTULO


(o autor, um deus bárbaro e cruel)




Abro as janelas de par em par, o sol entra e ilumina a sala, um gato gordo, rajado e velho arrasta-se até o meio do tapete e deita-se, tapete? Que tapete é esse? Gato? Desde quando tenho um gato, ainda mais gordo e velho? Vou segurar o espirro, vou segurar o espirro...

- Atchim! – ok, agora sou alérgico a pelos de gatos... O negócio vai mal...

Olho em volta e não reconheço essas paredes, vou procurar a cozinha, lá se houver uma geladeira, e há de haver uma, vou abri-la, e antes que a luz interna acenda sei o que vou encontra lá dentro. Gostaria sinceramente de:

1.          não encontrar a cozinha, e se encontrá-la
2.          não achar lá dentro uma geladeira, e se achar e a abrir:
3.          não encontrar aquele pedaço de pernil de porco. Esse maldito pernil de porco. Trinta anos e esse quarto dianteiro (mais barato segundo informações de pessoas entendidas no assunto) de suíno me assombrando...

Não sei por que sou o único personagem com a consciência de sê-lo, não sei por que meu criador me detesta tanto a ponto de escrever sempre a mesma história só alterando, por pura maldade – ou seria esquizofrenia? - os cenários.

Não há um capítulo que não comece comigo abrindo uma janela... E nunca, nunca há uma paisagem a ser descrita, um cenário cinematográfico de deixar o leitor sem fôlego, nada, isso quando não chove, neva, ou como no último conto, ele fez-me abrir – falta de conhecimento é claro – uma vigia de um navio e inundou-me a cabine, pois uma tempestade arrebentava lá fora. Acho que esse gato deitado no tapete morreu... Era o que me faltava, uma morte na minha história, será que nessa casa existe um jardim?

 Se sim:
1.                Por favor, que não seja secreto me fazendo perder horas procurando por ele;
2.                Que eu não descubra outros mortos enterrados nele;
3.                Que eu não seja alérgico a nenhuma planta de lá...

Ok, ok, lá vou procurar por um nessa casa, à frente tenho um longo corredor, espero que a casa seja térrea. hum, quadros bonitos nas paredes - Pieter Bruegel, o Velho - então, quero crer, devo esperar por belas estátuas no jardim, pela claridade há espelhos também... Tenho medo de espelhos, no penúltimo conto eu era um corcunda ruivo e caolho e carregava no ombro um macaco empalhado.

Por que ele me expõe assim ao ridículo?

Aproximo-me do espelho de olhos fechado, sinto vontade de passar por eles com olhos bem fechados, mas alguma coisa dentro de mim – subtexto talvez? – me obriga a olhar, olhar-me.

Quero seguir em frente, minhas pernas paralisam-se, e abro os olhos e constato que sou um personagem odiado. Esse louco - e pare de colocar tachado no que eu penso! – me odeia, me odeia, agora sou uma gorda tatuada e o que é isso no meu peito – e que peitos! – parece um crachá, parece não, é um crachá, ó meu Deus, sou uma funcionária pública. Mas o que estou fazendo numa casa desse tamanho? Tenho certeza que eu não ganho para isso...

Espere ai. Não estou sozinho, digo, sozinha aqui, ouço passos, passos de homem – como sei que são passos de homem? Não faço nem idéia, isso é coisa do autor desse folhetim miserável – eles se aproximam. Qual será o meu papel nessa trama? Sei que não deveria, mas sinto medo, calafrio, palpitações, um estremecimento, um receio, não, uma certeza que vou me dar mal...

A voz máscula chama por Martha, serei eu? Espero que não.

- Marta! - repete a voz, e estremeço, espero que não seja eu. Encosto-me numa parede onde não bate a luz do sol e espero que a tal da Marta apareça. A voz aproxima-se chamando pela Marta, prendo a respiração. E espero que capítulo acabe antes do sujeito aparecer.

- Acabe capítulo, acabe, acabe..., então eu:

- Genésio! – respondo ofegante, apaixonada, quase fora de mim.

Fim do capítulo.

Agora que chega esse fim do capítulo, agora? Agora o Genésio já está me arrancando as roupas...

Enquanto ele sobe as escadas comigo no colo – juro que esperneei um pouquinho... – me pergunto quanto tempo leva para um gato morto começar a feder...




POR QUE ELA ME DEU AQUELE BILHETE?




Acabado o almoço, sigo pra cafeteria encontrar alguém para desfrutar o melhor horário do dia. Lá encontro meu amigo *** (prefiro não declinar-lhe o nome, pois tudo o que escrevo é baseado em fatos reais), dirijo-me à mesa.

Sentado, soprando a fumaça da xícara de café, lamentava-se:

- Ainda não consigo compreender a razão daquele papelzinho com o número do celular que ela me deu... Para que ela me deu o número do celular se não era para sair comigo?

- Talvez... – Empaquei, enquanto vagarosamente dissolvia o adoçante de meu café. Entenda, não há talvez para papéis com número de telefone.

 - Sim, vamos, responda.

 - Talvez... – Empaquei pela segunda vez, com o adoçante já dissolvido e o café pronto para ser sorvido. O que eu poderia responder para ele naquele momento?

 - Eu imaginei, digo, afirmo que entendi que ela queria sair comigo. O que mais poderia ser? Afinal o que significa nesse mundo de meu Deus um bilhete com um numero de telefone?

 - Sim, só poderia ser isso, sem sombra de dúvida ou talvez... – Empaquei outra vez. Indagava-me, enquanto bebia aquele café, ser cruel e dizer a verdade ou olhar para o céu atrás de discos voadores? O céu, lá fora estava azul, seria fácil encontrar algum UFO por lá...

 - E o que eu fiz?  - ele continuava com a sua peroração, que só por pura piedade cristã eu fingia que prestava atenção. - Liguei e marquei um encontro. Às seis horas da tarde fui encontrá-la na saída do trabalho. Fui sem dinheiro, só com meu vale-refeição, a uma pastelaria. Dei a entender que havia deixado de almoçar para fazer um lanche mais substancioso com ela. Pedi dois daqueles chopes de vinho. Olhei dentro dos olhos dela e propus um brinde.

Enquanto ele falava consegui beber meu café. Estava de olho num doce português, na próxima oportunidade pediria um...

 - E... – indaguei sem muita convicção, sou fissurado em doces portugueses...

 - Ela levantou a taça e brindou: - “À nossa amizade!”

 - Meu Deus! – engasguei-me com o ar respirava. A garçonete veio acudir-me, aproveite e pedi outro café e um pastelzinho de Belém.

- Sim! Meu Deus, onde fui me meter! – ele, dramaticamente levantou as mãos aos céus. - Foi o que me passou pela cabeça naquele instante. Fiquei mudo e dentro da minha cabeça as palavras “amizade” ecoavam: - “amizadeamizadeamizadeamizade...

 - E ela? –perguntei agora realmente interessado no desenrolar do drama do amigo.

 - Bebia o chope sofregamente, como que tivesse uma desculpa para não falar nada. Olha através de mim, além de mim, contava os ladrilhos das paredes da pastelaria... Pensei com meus botões, se ela olhasse para o relógio não responderia pelo atos...

 - E você?

 - Olhava para ela como quem olha para um acidente de trânsito, um desastre, era o que eu via um desastre, e o acidentado era eu. Via ali, na mesa, um cadáver. Você já viu um cachorro atropelado numa estrada?

 - Sim. Feio de se ver... – adoçava o café e repensava a ideia de comer o doce, a imagem do cachorro atropelado mexeu com a pinha psique.

 - Pois é. Era isso o que eu (me) via ali. Um desastre feio, e o desastre era eu. Ia voltar pra casa a pé, não tinha nem grana para pegar um ônibus, e por causa dela tinha recusado uma carona pra casa, tudo para um brinde de amizade...

 - Que situação... – encarei o doce.

 - Que situação a minha, ali naquela hora. Tudo congelou. O papo, os planos, o futuro, os filhos, os passeios de mãos dadas ao por do sol, nossas bodas de ouro no nordeste e tudo o que eu via pela frente era o caminho que eu faria a pé indo para casa. E ameaça chover, lembra?

 - Mas você não tentou nada?

 - Tentar o quê? Falar mais o que depois desse brinde “à nossa amizade”? Minha vontade na hora foi pegar uma arma e matar todos os meus amigos, para nunca mais precisar pronunciar a palavra “amizade”.

- Obrigado pela parte que me toca. Matei o café num gole só, para segurar a risada, consegui não me engasgar de novo.

- Desculpa. Sei que foi mal... – vi que seu arrependimento de verdade. Relevei.

 - Tudo bem, continue. Pedi outro café. O terceiro até aquele momento. A vida dele indo pro buraco e levando meu estômago junto.

 - Ela bebeu todo o chope de uma vez sem respirar e pediu outro. Além de acabar com minhas ilusões, acabaria também com o saldo me meu vale refeição. A miserável! Outro chope e mais um ônibus que eu deixaria de pegar...

 - Então ela era boa de copo? – senti uma coceira no lado mau-caráter.

 - Boa de copo?... Ela era boa de bico. Responda-me: para que ela me deu o telefone? Qualquer um entenderia que era uma cantada... Por que só comigo tinha que ser diferente? Onde eu errei na interpretação do bilhetinho?

 - Mulheres! – Argumentei filosoficamente, mantendo-me assim numa posição ambígua sem me comprometer. Olhava para o prato onde estivera o meu pastelzinho de Belém, e pedia forças a Deus para não rir.

 - Mulheres, mulheres, mulheres! Deveriam todas ser enviadas para o lado escuro da lua. Se eu pudesse viver sem elas...

 - Quem as entende...? – olhava a garçonete que me trazia o terceiro café. Pediria ou não outro doce? Minhas escolhas também não eram fáceis...

 - Olha aqui. – Tirou do bolso um papelzinho dobrado e amarfanhado. Veja os números, veja a letra dela. Tem alguma coisa aqui que dê a entender que ela queria só amizade comigo? Leia, leia, leia!

 Para não ter um dos olhos vazados pelo papel, peguei-o de sua mão. Gravei na memória para depois jogar no bicho, daria, certamente, vaca ou burro!

 - Realmente, - cinicamente olhava o papel – realmente nada aqui dá a entender que era um bilhete de “amizade”...

 - Não precisa ser irônico na pronuncia da palavra amizade! – Rosnou.

 - Quer que eu rasgue essa porcaria? – Ameacei. Muito café desperta a minha Besta interior...

- Não! - Disse tremendo, quase gemendo – não rasgue, preciso ler e reler, analisar, estudar esse papel até entender onde está escrito que ela queria só a minha amizade.

Pegou o papel de minha mão, olhou-o contra luz e tornou a guardá-lo no bolso.

 - Até quando você vai curtir essa decepção? – esvaziava a terceira xícara de café...

 - Essa eu vou levar paro o túmulo, e quando reencarnar vou me lembrar disso outra vez...

 - Carma é uma coisa, isso já está ficando meio psicótico. – limpava da camisa os farelos do docinho.

 - Agora você vai dizer que estou louco, imaginando coisas, vai dizer que estava patente aqui no bilhete – e outra vez ele tirou o papelzinho do bolso – que ela queria só a minha amizade?

 - Veja – disse olhando para o relógio – está quase na hora de voltar a trabalhar. Vamos deixar isso prá lá, esqueça; pelo menos você bebeu um chope e... – fui interrompido.

 - Que chope? Antes de pedir o segundo ela bebeu o meu. Disse que ia esquentar e tomou o copo da minha mão...

 - Quer dizer que a noite foi perdida mesmo, você nem mesmo bebeu? Que...

 - Nem pronuncie a palavra, nem pronuncie. Me sinto assim desde de aquela noite. Maldita mulher, maldito bilhete, maldito mal entendido, maldito chope caro, maldita vida essa que me leva prá...

 - Nem continue! – Disse levantando-me da mesa. – Deixe um pouco para amanhã. Por hoje chega. Vamos trabalhar.

- Vá indo na frente, tenho uma coisa a fazer e devo fazer sozinho. – Seus olhos marejados encaravam o bilhete.

- O que você vai fazer? Não faça besteira, pense bem, não tem mulher que mereça... – outra vez interrompido.

 - Pode ir em paz.  Fique sossegado. Para provar que não vou fazer nenhuma besteira te prometo ligar mais tarde. Vá, vá.

 Saí um pouco mais aliviado, da porta o ouvi pedir:

- Garçom um chope!

Pensei com meus botões:

- Vai tirar o atraso de ontem...

De volta ao escritório tive um acesso de riso.

- Ah! Esses amigos que eu tenho!





AH OS MANSOS!



  
cuidado com os mansos

eles não latem nem rosnam
mas babam e mordem

eles te olham de soslaio
sorriem docemente
mas o fel lhes corre nas veias

eles riem com você
e riem de você,
cuidado nas ruas escuras!

olhe para os dois lados
          (sempre)
os mansos são perigosos
eles sempre traem

sempre!




O CAFÉ CONSTRANGIDO



 Meio dia e vinte.

Acabado o almoço apressado, vou ao café. Sim, sempre o café no meio. Estou sentando à mesa com colegas de trabalho.

À mesa, ao meu lado o Comandante Castro e o Deco.  Não falamos coisa com coisa, hora de descanso, ver as mocinhas dos escritórios indo almoçar, indo às lojas, flanando sob esse sol lindo de outono, nada de importâncias, nada de urgências, urge sim nos distrairmos para encarar o resto do expediente.

Fomos servidos pela mocinha que não sorri. (logo inferimos que há algum problema que a impede de sorri!) Discutíamos o que a levaria a ser tão séria. Seria realmente só uma moça séria? Faltar-lhe-ia um dente? Seria somente triste, mofina? Ou puramente só antipática e pronto, como sugeriu o Deco? Vá saber...

Pernas esticadas sob um céu azul digno de Montevidéu (se duvidam, vão lá conferir), cigarros acesos. Sim o bom Deus deu-me companheiros que tomam café e fumam![1] E ainda de lambuja nos deu uma cafeteria com mesas à rua, o que nos permite ver a paisagem e fumar em paz.

Tudo parecia seguir um bom rumo, estávamos já no segundo espresso quando um mendigo (ou devo escrever cidadão em situação de rua?) aparece. Como eu estava de costas para ele, de costas continuei. Há muito perdi as esperanças de salvar a humanidade e esse mundinho. Deixei que o Comandante Castro ou o Deco falassem com ele.

Os dois, assim me pareceu, deviam estar invisíveis aos olhos do dito pedinte, que nada pedia a eles, e continuava a me importunar.

Nada. Ele tocou-me as costas de novo, virei e antes que ele pronunciasse aquela lengalenga, disse-lhe que nada tinha e que os companheiros na mesa estavam pagando o café hoje.

Os dois a partir desse momento passaram procurar carneirinhos no céu...

Não adiantou e para minha estupefação, ele ajoelhou-se no chão chorando. As pessoas que passavam pela calçada me olhavam.

Uns com reprovação pelo nosso coração duro, outros, talvez irmanados no meu constrangimento viravam o rosto para o outro lado.

A cena desenvolvia-se em câmera lenta.

Eu não sabia o que fazer, no único e esperado momento do dia em que relaxo aquele indivíduo ali de joelhos, as lágrimas prestes a descer-lhe pela barba imunda me constrangendo, quase me obrigando a dar-lhe uma esmola, um óbulo, ou em caso de maior desespero, um tiro para acabar com aquele drama.

Situação horrível de se viver.

Virei-me e o deixei chorando ali sozinho, o café amargou-me a boca e cigarro perdeu a graça.

Passados longos segundos, por fim ele levantou-se e foi embora (não sem antes, sarcasticamente, me agradecer por nada e me recomendar ao bom Deus).

Não pudemos deixar de reparar que ele usava bermuda de surfista mais cara que a calça que usávamos, sem contar o tênis de marca, daqueles que se matam facilmente hoje em dia para roubar.
Esse mundo não tem mais salvação.

Amanhã tomarei café num lugar mais reservado e, de preferência, sozinho.







[1] Viu Magrão, viu?

OS AMORES E SUAS DORES




Dia cheio quando ele chegou. Um daqueles dias em que o cristão se pergunta por que não nasceu um Rockefeller, Gates, ou mesmo um “Seu Manuel” da quitandinha, que tem mais dinheiro que eu.

- Ela é casada com o careca, o garçom que nos atende – Falou-me assim de chofre enquanto eu pensava nas minhas dívidas.

-Quem? Casada com que careca?

                   - Luzia – murmurou, entre suspiros dolorosos.

- Então era por isso que ele vive com aquele chapéu? – murmurei com meus botões. Longos cabelos negros escorridos, olhos lindos e profundos, pés pequenos, mãos brancas de dedos longos – mãos de pianista -, unhas vermelhas e sempre muito simpática pensei naquele momento, mas guardei para mim tais pensamentos...

Ainda atordoado pela chegada súbita dele, fiquei a olhar para o nada.

- Vi no facebook do restaurante a foto dela abraçada com o careca..

- Mas você não achava que eles eram irmãos? - Guardei para mim a decepção! Mas logo a compartilharia com os outros colegas que iam almoçar lá só por causa dela... Afinal quem divide, multiplica!

- Me iludia, me enganava – resmungava o pobre homem, nosso capitão a espera da eterna revolução socialista que não vinha - tentava cobrir o sol com a peneira... Ela me hipnotizava.

-Nos... (parei a frade na metade, acho que ele não gostaria de saber que todos nós sonhávamos com ela)

- Pobrezinha li que ela não tem mais a mãe...

- Perdeste a chance de ser feliz duplamente... – (Sou um cínico, sei!)

- Como? – indagava quase babando.

- Ter a Luzia e não ter uma sogra... (por pura piedade deixei de falar que ainda assim teria um cunhado!)

- Essa é história da minha vida... (houvesse uma plateia a nos assistir, esse seria o momento do suspiro coletivo! – pensei comigo)

- E agora? – Senti que a pergunta era como passar sal na ferida. Eu não presto mesmo!

- Volto ao Português... – declarou decidido - Lá como à vontade e pago menos. Acho que o marido a explora. Ele a colocou ali, linda daquele jeito!, só para atrair freguesia. Isso é quase prostituição...

Feito um vereador em cima de caixote, ele continuava com seu discurso inflamado:

- Tenho certeza. – disse peremptório. Aquele gigolô!

Não fosse o susto, juro que o aplaudiria! Tive vontade de colocar mais lenha na fogueira e acrescentar que ela gosta de coentro e quem gosta disso boa gente não é... Mas ele sabe da minha implicância com esse vegetal... Além do mais, se a  minha mesa sem dizer nada levou um murro, imagine eu? Guardei para a mim o comentário...

- Sim, afinal a comida no restaurante dela não era mesmo grande coisa, não é? – aí não sei bem se ele se engava ou tentava me convencer. - E aquele negócio do careca falando toda hora “bom dia senhores, bom dia cavalheiros, bom dia senhoritas.”, aquilo me irritava deveras... Coisa pouco máscula para um restaurante no porto... Só lamento o mau-gosto dela – quase, quase falei no coentro!  – disse seguido de mais suspiro capaz de fazer estátuas chorarem.

Tive vontade de discordar. Mas diante daquele olhar de cachorro abandonado na chuva não tive ânimo...

- Mas no português tem a... – ele me interrompe. Não lhe agrada que eu o lembre de seus amores frustrados. Senti uma vontade muito grande de descrever a pele de seda dela, o gingado, o tratamento diferenciado, mas o medo falou mais alto, outra vez! O que me mata é essa minha covardia...

- Sim, tem ela, mas já a superei. Hoje a vejo com outros olhos. Sinto-me um quase irmão dela... – dessa vez sou eu que o interrompo.

- Não se iluda seu velho descarado... - Tive ganas de perguntar-lhe se já havia comprado umas borboletas azuis, mas o meu bom-senso achou melhor deixar isso prá lá... Me arrependi de tê-lo xingado. Pude ver mais um futuro-pretérito desfazendo-se à minha frente. Lá se ia o sonho do casamento, da família, do Juninho, do labrador chamado Bonifácio, a criação de curiós... Tudo se desfazia...  Do cenário idílico só sobraram os pombos voando sob um céu que há pouco tempo era azul, era promessas, era um mundo que... Poetizo, deliro, viajo nesses momentos... Sou um sentimental incurável! E há quem diga que não tenho coração...

Ficamos em silêncio por um tempo...

Ele olhou para o teto, achei que fosse reclamar das rachaduras, das paredes descascadas, das sujeiras das janelas, quando ele me sai com essa:

- Hora de irmos ao quinto andar!

- Voltou a fumar passivamente?

- Não sei como consigo viver nesse mundo sem o seu cigarro!

Eu ia tocar no assunto das borboletas azuis, mas resolvi deixar esse assunto pra lá...



ELOCUBRAÇÕES





Seis horas, toca o despertador, acordo e me deparo com o chão coalhado de baratas mortas, suas pernas finas tremendo ao vento que entra pela janela.

As cortinas dançam com a mesmo aragem. Só faltava ouvir Marcha Fúnebre - de Chopin...

Começar o dia assim...

Essa cena me faz voltar no tempo e me lembrar de frei Justino, - que Deus o tenha em um bom lugar! – que num domingo na hora da comunhão de repente quedou-se paralisado, em choque com a hóstia em suas mãos estendidas ao alto, quando sente uma barata passar sobre seus pés e correr em direção ao altar, com olhos esbulhados olhando em direção as fiéis, babando começou a murmurar para o coroinha:

- Tire esse cágado da igreja, tire esse cágado da igreja...

Patética era a sua situação, pois ninguém via em nenhum lugar na igreja o tal do cágado, e o pobre homem, por fim, surtou, enlouqueceu, e foi retirado da igreja á base de muito conversa...

Volto - essas minhas idas ao passado me dão vertigem - ao presente e as baratas continuam ali no chão, mortas de barriga para cima.

Nunca mais tive notícias de frei Justino...

Desvio-me delas, senão com nojo, com muita cautela...

O sol promete mais calor, a continuar assim esse clima logo os vizinhos me encontrarão morto, duro e suado na cama, e tal e qual essas Periplaneta americana”- eu as odeio, mas as conheço - em decúbito ventral e como o velho Justino, de olhos esbugalhados, talvez ainda balbuciando:

- Os cágados, os cágados...

Vou à cozinha, reviro o armário, acho o inseticida que usei à noite passada, leio as instruções.

Penso com meus botões:

- Arma de destruição em massa, genocida... – como sou hipócrita, meu Deus! Sentia-me feliz, livre e mais limpo com a morte delas..
.
Por via das dúvidas resolvo jogar fora esse veneno. Não quero em minha consciência os fantasmas de meu passado me assombrando a cada inseto morto – e há tantos nessa cidade!
Vou dar uma volta, quando voltar arrumo alguém para limpar o apartamento. Creio passarei uns dias fora...

Na rua, enquanto jogo o veneno no lixo, decido-me:

- Domingo vou à missa!






2018/04/16

A VIRGEM VITORIANA




“O velho sátiro entrou no quarto da mocinha, ela estava estendida na cama, lânguida e ofegante.
Na verdade a mocinha era uma fada, de asas tão diáfanas que pareciam com as de libélulas. Magra, fina, frágil e branca feito uma porcelana chinesa, ela tremeu ao ver a figura priápica, perdeu o fôlego e sorriu.
Seu sorriso excitou ainda mais a monstruosa figura que avançou e baixou lentamente seus cascos eqüinos, evitando assim qualquer barulho que chamasse a atenção dos guardas que ficavam do outro lado da porta.
Sua respiração fazia vibrar o ar à sua vota.
A fada agitava suas frágeis asinhas e também arfava fazendo com que as chamas das velas tremeluzissem e produzissem sombras fantasmagóricas.
A besta lentamente achegou-se aos pés do leito da donzela...”




Abanando-se com as folhas manuscritas, a virgem vitoriana, afogada em uma desconhecida agonia, dirige-se à janela de sua casa de grossas paredes de pedras.  Na velha lareira uma acha de lenha estala assustando-a. Ela vira-se para trás e pensa ver a sombra do velho sátiro, encosta-se na parte mais escura da sala, e entre amedrontada e ansiosa pede a Deus que sua criatura tenha conseguido fugir do reino da fantasia e venha resgatá-la dessa vida insossa e sem cor. Mas outro estalo da lenha levanta uma minúscula faísca, que mesmo assim produz uma luz fugaz o suficiente para iluminar a sala e fazê-la sentir-se uma idiota.

Abana-se com mais força, fazendo com que as folhas se espalhem pelo chão, mas ela não pensa em recolhê-las de imediato. Antes de tudo o mais precisa respirar, precisa urgentemente respirar e chamar uma aia para libertá-la do espartilho, soltar-lhe os cabelos, trazer-lhe uma jarra de água – água, não – uma jarra de vinho tinto – vermelho cor de sangue – sente que precisa recuperar a cor.

Da janela a virgem vitoriana olha para a vila lá embaixo no vale. Mas é pouco e difuso o que se pode ver a essa hora, pois já é noite de lua nova e uma névoa muito espessa cobre tudo. Ela fecha a janela a tempo de evitar que um morcego entre em sua casa.

- Um morcego! – ela murmura – um morcego iria muito bem à minha história. Volta à escrita, relê, toma da pena de ganso – que cria exclusivamente para isso – e volta escrever.

“A criatura meio-homem, meio-bode estica sua gigantesca mão em direção à virgem. Ela sofre de angústia, desejo, escrava de um desejo até então desconhecido. Seria o forte odor caprino do mitológico ser que a enfeitiçava? Seriam seus olhos negros feito carvão?”

Outro estalo da lenha a fez jogar a pena de ganso para o alto, e quase cair da cadeira, onde se sentava na beirada, vítima, ela também, do encanto de sua história.

E com o susto, ela acaba por olvidar a introdução do morcego na história.

A virgem vitoriana resolve, enfim, chamar a sua criada, e pedir uma jarra de água e outra de vinho tinto. Com uma mataria a sede e aproveitaria para limpar o suor que lhe brotava na testa, com a outra, recuperaria a cor e a coragem para seguir em frente com a história.

Somente bebendo ela poderia imaginar a consumação do ato de amor entre a Besta e a Virgem. Enquanto esperava a velha serviçal chegar ela aproveitou para acender mais velas, a criada não deveria pegar jamais uma dama vitoriana como ela sozinha com uma história contendo sátiros príapicos, alcovas e virgens prestes a deixar de sê-lo. Ela era uma mulher vitoriana ciente de seus deveres sociais.

Passados poucos minutos, ela torna à sua pena de ganso (outra, pois aquela outra só seria achada anos depois do... - bem isso é outra história e eu não vou contar nada aqui) e à escrita. Como que possuída por mil demônios, escreve e bebe, escreve e bebe e de quando em quando, sacudindo a cabeça, ri.

Descreve com impressionante riqueza de detalhes as preliminares (que ela descrevia da lembrança de uma noite em que, procurando a chave das adegas, viu sem querer sua serviçal namorando com o chacareiro, protegidos pelas sombras dos corredores da velha mansão), trinta e três páginas depois, ela finalmente chega ao momento da consumação, e...

Para.

Estaca.

Petrifica-se, pois não sabe como continuar a partir daí, afinal, desgraçadamente, ela é uma virgem vitoriana, velha e feia.

Por exaustivos minutos, ela escreve, rabisca, rasga as folhas e nada consegue produzir. Olha para o chão agora coberto de folhas amassadas e chora.

Chora frustrada, pois:

1.      Desconhece as delícias do sexo, e;
2.     Precisa chamar a aia para, (que humilhação!) perguntar-lhe o que acontece depois das preliminares.

Gemendo, amaldiçoa ser uma virgem vitoriana...