2017/08/11

CARTA ONDE ENSAIA UMA DESPEDIDA DESSE NOSSO MUNDO





Caríssimo, afasto-me.

Tomei enfim a definitiva e final decisão. Carrego minhas malas, baús, embornais e duas ou três sacolinhas com pão de queijo e mandioca. Vou-me afinal. Sopesei muito, pesei, medi bem e às favas com as consequências. Cansei-me, enfadei-me, enjoei mesmo de tudo nessa vila e arredores.

Sou um homem velho, sou caçador de feras e outras maravilhas. Não sou homem de arrumar encrenca, brigas, desaforos e desafetos!

Ah! Bom amigo tenho passado por poucas e boas ultimamente. Essa velha pensão cada dia mais mal assombrada/frequentada. Meus nervos já não são mais os mesmos, eu já não sou mais o mesmo, que o digam os meus espelhos... Mal penteio os cabelos, já não faço mais a barba, branca, que já me chega ao peito...

Sai da pensão de madrugada, feito um ladrão, aliás, como costumo sair de todos os lugares onde já morei. Saio como fugido. Mas sossegue, a senhoria há de encontrar meu aluguel num envelopinho sob a sua porta pela manhã ao despertar. Sou estranho, mais ainda continuo honesto como meu velho pai. Lembrei-me dele dia desses, depois lhe conto.

Ao sair da velha pensão recomendei que os anjos continuassem por lá por mais uns dias e que me mantenham informado de tudo que por lá se passe e dos que  passem por lá também.

Ando impressionável.  Ouço vozes, vejo vultos, imagino complôs, intuo traições, nada de bom passa por esse velho e calvo crânio.

Por isso se você ficar muito tempo sem notícias minhas tente não se preocupar. Vou afastar-me de tudo e de todos. Descobri um jeito de escapar dessa realidade de três dimensões...
(abro esse parêntese para que você velho amigo possa recuperar o folego).

Espero que junto com o folego tenha ao seu lado sua velha xícara de café, lembrança da sempre saudosa Dona Maria Amália.

Pois é, depois de muito estudo, muita pesquisa, queimar muita pestana em velhas bibliotecas e antigos alfarrábios, descobri como sair disso aqui (estenda bem seus braços e olhe para o horizonte, respire bem fundo, e entenda o que significa o “tudo isso aqui!”).

Percebi, enfim, que vivi num mundo de ilusões, fantasias, pesadelos, quimeras e miragens... – imagino-o balançando a cabeça e pensando que o absinto acabou comigo – mas engana-se, só a sobriedade me enlouquece.

Despeço-me aqui. Logo hei de dar-lhe noticias, quer por escrito, quer em seus sonhos – mas tome cuidado com os súcubos, muito cuidado!!

Até mais Velho Homem.

P.S. Duvido que do “outro lado” eu possa enviar-lhe alguma lembrança ou peças para sua coleção de maravilhas.



2017/08/03

TENDÊNCIAS...




Prezado, bom dia.

Responda-me, urgentemente (atente à quantidade de selos que lhe envio para pronta resposta), para onde esse nosso montinho de barro e água salgada está indo?

Ontem ao andar sem rumo pelas ruas fui acometido por uma vontade imperativa de tomar um café. Sabe o velho amigo que depois (ok, bemmmm depois mesmo) do absinto, o café é a minha segunda fraqueza.

Pois me pus a procurar uma cafeteria para saciar tão premente necessidade quando, de chofre, surgiu à minha frente uma velha construção de madeira, na verdade uma serraria, das antigas. Lá, à mostra, exposta ao sol uma placa com os seguintes dizeres: “CAFETERIA”!

Peço desculpas se o levei, sem querer é claro, a uma promessa de clímax! Entrei, atravessei o umbral daquele que, parecia-me, prometer uma revelação sobre a arte de tomar café.

O chão era coberto de serragem, o espaço entre os caibros que formavam a armação do telhado, sem forro, era preenchido por anos e anos de teias de aranhas, brrrrr, que por sua vez estavam com outras tantas eras de pó de serragem...

Imagine meu mal estar.

O interior era decorado por máquinas, antigas todas. Serras, plainas e muitas mesas feitas com restos de madeiras, os garçons vestiam-se com velhos aventais dos empregados da velha casa, e, dado curioso, todos eles tinham uma coisa em comum: Em cada um faltava ou um dedo ou faltava um pedaço de um dedo...

Encostei-me na primeira mesa que vi.

Ela era manca!

Não havia cadeiras.

Aguardei que me atendessem.

Esquecia-me de descrever a iluminação da cafeteria. A luz que vinha era de pequenas telhas de vidro no teto. Luz parca era “filtrada” pela poeira e teias de aranha. Agradeci ao Criador que lá não houvesse pombos. Como sabe sou grato por qualquer coisa, sempre. Após tirar do bolso de meu paletó um exemplar do Diário Oficial da União para calçar a perna da mesa, um garçom por fim apareceu.

Faltava-lhe a metade do dedo indicador!

Velho Barista, aquilo que me foi servido era qualquer coisa, menos o “divino líquido”. Naquele momento agradeci (veja, sempre agradecendo, sempre) o chão coberto de serragem, e de pronto cuspi aquele veneno marrom!

Amigo Velho esse negócio de tendências já está enveredando pela pantanosa senda do ridículo.

Imagine que tive que pagar pela beberagem e por trezentos e cinquenta gramas de serragem que “estraguei” com a minha cuspida! Sai de lá furibundo e ao chegar à rua - fiquei ofuscado por uns segundos, o sol lá fora estava fortíssimo - um pombo...

Prezado, só o absinto me remite, só com ele saio desse mundo e adentro a os outros universos, outras dimensões.

São essas frustrações me levaram a tornar-me um caçador!

P.S. Comprei uma espingarda de chumbinho. Prevejo uma carnificina de columbinos, um genocídio dessas pragas.

P.S². Envio-lhe umas penas na próxima missiva.


FALHA TÉCNICA


preparado para o frio
agasalhos à mão
a previsão falhou


2017/07/26

RÁPIDO!


em breve
em curto prazo...
ué?! tudo acabou?

ANTI-PEDRO

quantas vezes cante o galo
em nenhuma sinto medo
ou remorsos – regozijo


QUASE ZEN, QUASE


     um carcará no céu
pombos em minha janela
o telefone toca sem parar

JANTAR

o hashi sobre
o prato vazio
fome? saciada

CAIS


caminhões e trens
fumaça e ruído
pombos e seus grãos


...E TOCA O DESPERTADOR


do silênci’onírico
ao caótico despertar
para a realidade


2017/07/24

PARANAPIACABA


na serra a névoa
densa, na grama,
o galinho vermelho

nos bares
sorveterias lá
reina o cambuci

da cidade alta
à cidade baixa
a névoa cobre a ponte

os trilhos de ferro
a história enferrujada
a decadência reina

cenário terrível
um doce pavor
já passa das duas.

um big-bem de fantasma
gente nas névoas
cidade doutros tempos

o trem já não passa
passa o tempo de devagar
e devagar rói tudo

sem sol
sem lua
sempre a névoa

APÓS O PASSEIO


sim companheiro minh’alma é
jovem ainda mas meus ossos ...
depois de ontem tudo me dói hoje